Cabeleireira Mané

Entrançar cabelo tem raízes em África, mas a sua arte não tem fronteiras

Diário de Aveiro, Adérito Esteves, quinta 26 outubro 2017

Cabeleireira-Mané

Para Nemamané não há encruzilhada que a assuste ou nó que a atrapalhe. Nascida em Bissau há 46 anos, veio para Aveiro com 19, correndo atrás do amor: o homem com quem casou que estava, então, a estudar na cidade. Hoje, com dois filhos criados, já se sente “metade de Portugal”, mas admite ter o sonho de regressar à Guiné que a viu nascer e onde só voltou por duas vezes nos 25 anos que leva em Portugal. Depois de quase duas décadas a conciliar o trabalho numa fábrica de confecção de roupa com aquela que é a sua paixão, há nove anos passou a dedicar-se apenas à arte de trabalhar o cabelo. Mas voltemos ao início. À chegada a Portugal da “Cabeleireira Mané”, como exibe orgulhosamente na bata que veste enquanto “faz moda” a mais uma cliente, ao mesmo tempo que desfia memórias em conversa com o Diário de Aveiro. “Quando não se conhece o país, uma pessoa pensa, pensa, pensa. Mas vim, para ver se me habituava e acabei por gostar”, assume Nemamané. Recordando que acabou por não sentir grandes dificuldades na adaptação ao nosso país, a guineense acredita que o facto de ter começado logo a trabalhar na referida fábrica contribuiu muito para isso. E foi ainda enquanto trabalhava em confecções que começou a trilhar o caminho que queria, conciliando isso com algo que a acompanha desde sempre. “Eu sempre fiz isto, desde que me conheço como gente. Tinha uma tia que já entrançava e esticava cabelo e eu, ainda pequena, ficava ali a ver e a terminar as pontas”, garante, sem tirar os olhos do cabelo da senhora que tem sentada diante de si e a quem vai fazendo “crescer” cabelo quase que por magia. “Isto é uma arte”, orgulha-se, confidencian¬do o “prazer enorme” que lhe dá “ver um cabelo bem trabalhado e as clientes a saírem daqui com outro ânimo”.